sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Quiete

porque o tempo, por respeito, não pergunta.

respostas ficam quietas nos cantos dos dias,
na luz cansada das tardes,
naquilo que a gente esquece
e, por esquecer, nunca acaba.

Às vezes, quando a noite aquece
o travesseiro fica quente demais,
eu quero voltar 
a uma rua que talvez nem exista mais.

Quero o rumor da espera de um ônibus,
um nome dito depressa,
a pressa de quem não tinha pressa,
o riso escondido depois do amém,
alguma promessa sem palavra

Quieta, bonita, a memória não mente.

Ela inventa.

Depois vieram os anos,

os relógios, os empregos,
manhãs apressadas,
café tomado em pé,

pequenas mãos, pequenos pés

apressados

a xícara largada em qualquer canto.
a vida
empurrando tudo para diante.

Tardes

quase quietas,
quase quentes,
Nessas tardes eu me pergunto:

que teria sido
se o mundo, por um instante,
tivesse sido menos mundano

e mais encontro no parque
se aquele caminho comprido

não tivesse terminado na terminal.

Então eu fico quieto.

Porque há coisas sem nome
que não precisam ser ditas.

Quero talvez não a volta,

mas o instante.

Em que tudo era possível, mas ninguém sabia.

Me aquieto em poesia.

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