porque o tempo, por respeito, não pergunta.
respostas ficam quietas nos cantos dos dias,
na luz cansada das tardes,
naquilo que a gente esquece
e, por esquecer, nunca acaba.
Às vezes, quando a noite aquece
o travesseiro fica quente demais,
eu quero voltar
a uma rua que talvez nem exista mais.
Quero o rumor da espera de um ônibus,
um nome dito depressa,
a pressa de quem não tinha pressa,
o riso escondido depois do amém,
alguma promessa sem palavra
Quieta, bonita, a memória não mente.
Ela inventa.
Depois vieram os anos,
os relógios, os empregos,
manhãs apressadas,
café tomado em pé,
pequenas mãos, pequenos pés
apressados
a xícara largada em qualquer canto.
a vida
empurrando tudo para diante.
Tardes
quase quietas,
quase quentes,
Nessas tardes eu me pergunto:
que teria sido
se o mundo, por um instante,
tivesse sido menos mundano
e mais encontro no parque
se aquele caminho comprido
não tivesse terminado na terminal.
Então eu fico quieto.
Porque há coisas sem nome
que não precisam ser ditas.
Quero talvez não a volta,
mas o instante.
Em que tudo era possível, mas ninguém sabia.
Me aquieto em poesia.
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