quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Baú de ipê



Sob cinza da serra, a terra respira
e, tímido, um ipê amarelo
abriga as raras.
Também eu estou cansado.
Meus dias passaram/pesaram,
arderam iluminando a paisagem

em noite sem lua cheia
entre o pão conquistado, as portas fechadas,
o peso das mãos ao entardecer
o céu se põe vermelho
e o silêncio do lado de fora,

que acompanha o homem
quando finalmente repousa.

E, contudo, esta manhã,

quando o sol tocou os galhos nus,
lembrei-me.

Não como eras ontem,
mas como eras naquele frio
em que nossos olhos inda desconheciam
a crueldade das despedidas.

Havia alguma coisa
que eu não soube nomear.

Talvez fosse a própria juventude,
talvez fosse Deus passando 
para ensinar-me que a beleza
também pode desaparecer.

Eu poderia ter ficado.

E talvez tivesse descoberto,
aquilo que agora procuro
em tantos dias que não me pertencem.

O tempo não devolve portas.

São pés de pele fina correndo no cerrado.

Prefiro guardar onde o tempo não alcança:

naquela região secreta da alma
onde os ausentes
e os impossíveis
ainda conversam conosco.

o ipê amarelo voltará.

As árvores florescerão
sem saber que envelheci.

E talvez eu também floresça,
de outra maneira.

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