domingo, 23 de agosto de 2026

Domingo



Sem alarde

O domingo se esvai 

Vagarosamente

Os sons, longínquos, morrem

Abafam na tarde que se despede.

O sol se inclinando

Entortando as formas 

Nas ruas cansadas

Tua última luz se despede

Sem pressa num olhar desfocando

As folhas da mangueira.

O pássaro distante e sozinho.

Ainda há doce no paladar.

O sol vai embora.

Eu anoiteço.

Nenhuma tarde retorna

Há dias que terminam

Sem final.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Atraso



Me adianta nada, 

maldizer o agosto que crepita

a pele que se irrita

se asfalto ou se rio

inverno que não faz frio.


Me adianta nada

Conversa de rádio no trânsito

espera de semáforo

não transito

pedra de Sísifo.


Me adianta nada

chutar a pedrinha para bem longe

a tampa do dedão que esfolo

aos berros 

com o que não controlo.

terça-feira, 21 de julho de 2026

21 de julho 2026




Há invernos que não chegam pelo frio,
seca os caminhos
empurra sons para tão longe

Som azulado
É quando a tarde perde o calor
e o céu veste um silêncio
que não houve mais ninguém.

Agosto ainda nem nasceu,
mas já há pés descalços na poeira
que anunciam sua chegada.
Floradas dos ipês,
Quando o serrado perde suas cores.

Nesse inverno um velho baú rangeu por dentro da memória.

Guarda cartas já sem perfume,
risos que sobreviveram a tantos invernos,
e uma doçura tão rara
que teve que medir a própria doçura
para continuar existindo.

o inverno continuou frio,
o vento continuou seco,
o som continuou azulado, 

distante pelo resfriado e pelas orelhas frias.

Mas alguma coisa voltou a respirar.

Como uma canção que há muito não se ouve e de repente toca no rádio.

Existem ternuras

que não dependem de açúcar.