Há invernos que não chegam pelo frio,
seca os caminhos
empurra sons para tão longe
Som azulado
É quando a tarde perde o calor
e o céu veste um silêncio
que não houve mais ninguém.
Agosto ainda nem nasceu,
mas já há pés descalços na poeira
que anunciam sua chegada.
Floradas dos ipês,
Quando o serrado perde suas cores.
Nesse inverno um velho baú rangeu por dentro da memória.
Guarda cartas já sem perfume,
risos que sobreviveram a tantos invernos,
e uma doçura tão rara
que teve que medir a própria doçura
para continuar existindo.
o inverno continuou frio,
o vento continuou seco,
o som continuou azulado,
distante pelo resfriado e pelas orelhas frias.
Mas alguma coisa voltou a respirar.
Como uma canção que há muito não se ouve e de repente toca no rádio.
Existem ternuras
que não dependem de açúcar.
