quarta-feira, 12 de maio de 2010
Metade
"(...)Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também."
terça-feira, 11 de maio de 2010
Arabesco de fumaça de café
Um banco vazio.
Poesia em pétala espelha,
Meu café frio.
Quero o frio como blusa,
Esbranquiçar a pele,
O calor que se recusa
A primavera que se expele.
Tenho o estrondo da porta
A folha morta
O violão num canto
A árvore em pranto.
Som de jardim...
Em vendavais flores de primavera viram seu fim,
Testemunhas das estrelas,
Rosas vermelhas,
Vieram rosas no frio,
Ainda canção, ainda poesia invade
Asa da minha saudade,
Rubras, pequenas, no outono vazio.
O café, a fumaça,
O sorriso, tua graça,
Abraço invisível,
Palavras querendo o indizível.
Inverno passado preciso
Tinha um café quente,
Um vento veemente,
Eu tinha um sorriso.
Arame Farpado
Arame farpado.
Acerca dessa dor eu entendo!
Daqui de dentro,
Onde há um frio gemendo
De olhos abertos dormindo...
Acerca desse lado só eu sei.
Achismo,
Farisaísmo,
Perfídia,
Falso moralismo...
Hoje não! Por favor!
Me cobre o que tenho,
O que não quero!
Economize asneiras...
Arame farpado!
Acerca de tudo isso,
Estou sob minha própria pressão...
Subindo!...
Bússola quebrada,
Raiva dormente,
Atrasada...
A cerca farpada
A ira calada
E se eu explodir?
Que se exploda, né?
Olha!... Um balde!
Nele está escrito: "Chute-me com força!"
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Perto de Você
A saudade vem borboleteando
E pousa na caneta do poeta,
Despetalando as folhas onde ele escreve flor.
Sonhos diversos...
Versos que vêm do ar da música na rua,
Do céu e do jardim,
Do lugar sem nome.
Correndo paralelepípedos,
Molhando a derme com gosto de chuva, de estrelas,
De inverno, de café e de rio,
De oceano...
De sons de versos.
(AlexSandroBambiL)
quinta-feira, 25 de março de 2010
Minha vida de Charlie Brown
quarta-feira, 24 de março de 2010
Por um fio
Essa linha junta a terra, o firmamento e as nuvens de véu,
Por um fio nessa saudade que aqui fica,
A corda não aguenta e rasga a quimera no meu céu.
A linha do horizonte adormece este olhar,
Que busca o teu que quem sabe além,
Depois deste azul que some devagar,
Pode estar também o meu a procurar.
É vermelho, branco, azul...
É rosa do meu planeta que conto as cores.
Órion se vai no inverno, fica o Cruzeiro do Sul.
Te encontro pelas estrelas ou pelo pólen das flores?
A linha do horizonte toca o céu e o chão,
Ah anjo! essa linha que não une mortais.
Quando mais te verei, meu coração?
Seca essa lágrima que cai, quando além deste horizonte te vais.
É fogo!
Azul, verde, vermelho, arde!
É fogo!
Inflama e se ateia cá dentro,
Mesmo que haja neve sobre as palavras indiferentes.
É ausência, é tema de poeta...
É fogo!
Salivando as línguas dessas chamas, desse cheiro caloroso onde a alma deseja se queimar...
Acenda o rastro de pólvora que deixei! E me abrasa forte!
A boca que chama por ti seca, tenho um coração em chamas, nas mãos,
É suor e sangue murmurando sua ausência mesmo em presenças sobrenaturais.
Me chama que consome...
Chama pra me consumir devagar.
terça-feira, 23 de março de 2010
Chuva de Outono
Agora a chuva umedece as paredes pintadas,
O tempo é linear, minhas letras e canções caladas,
Estalam nesse vento que entra gelada infelicidade
E racham a pele seca de saudade.
Acalenta-me flor! Antes de meu sorriso findar.
Posso sem asas em teu céu púrpura voar...
Anjo! Suspiro teus olhos diamante,
Teu sorrir é a liberdade de uma vida ofegante.
Canções que te tocam me chamam,
Choram, calejam, os dedos inflamam.
Cortante vento de assovio fino,
Frio, mesa, café e cappuccino.
Lágrimas empilhadas sem sincronia,
Hirto, antes prefiro a hipotermia
Do que sufocar o sofrer!
Por ti vivo tantas vezes for, pra de saudade morrer.
sexta-feira, 12 de março de 2010
Música que ninguém vê
sexta-feira, 5 de março de 2010
Lugar sem nome
A saudade acerta a vida inteira,
O olhar errante.
E as ilusões impublicáveis da minha mente
Não foram cuspidas boca afora;
São tantas entradas quando me abres a porta de repente
Mas meu tempo demente é todo teu sempre e agora.
Aquece, talvez em todo outono verão que
Sem ti há só inverno cá dentro em todo lado.
As folhas grudadas na mente e no meu corpo são,
Nostalgias aladas ferindo um Prometeu calado.
Ah! Poesia que lá numa flor lançou meu coração,
Impetuosa sussurrou: “Vá buscar, bicho homem!”
Ficou lá pra onde meus sons e silêncios entoados são
Nas pétalas pra onde meus versos escorrem e se escondem.
Os opostos...
Ela perfeição
Eu rocha
Ela diamante
Eu cappuccino
Ela café
Eu frio
Ela chuva
Eu passado
Ela pretérito mais-que-perfeito
Eu escrevendo
Ela deslendo
Eu moleque
Ela moça
Eu tela
Ela tinta
Eu Coca
Ela suco
Eu ogro
Ela fada
Eu lágrima
Ela sorriso
Eu tempestade
Ela neblina
Eu guitarra
Ela violão
Eu plebeu
Ela nobre
Eu brisa
Ela vento
Eu reticências
Ela vírgula
Eu palavra
Ela rima
Eu sustenido
Ela bemol
Eu mar
Ela farol
Eu abelha
Ela flor
Eu sempre ela
Ela sempre em mim... sempre.
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Rosa
(Alex BambiL)
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
sábado, 1 de agosto de 2009
sexta-feira, 31 de julho de 2009
Queda Livre

"As nuvens podem esconder uma estrela, mas elas passam e a estrela fica."
- Lucas Vauvenargues
Uns prelúdios de inverno, tudo tão denso no ar que respiro... a graça do bom perfume que te acompanha parece desenhar e desdenhar de qualquer beleza terrestre.
Preso, caindo em queda livre...
Esculpi as nuvens mais brancas com as formas do teu sorriso estrela, e as mais cinzas semelhantes aos dias de tua ausência... enchi uma garrafa com meus versos, e saí bebendo.
Alex Sandro Bambil de Lima
quinta-feira, 4 de junho de 2009
Resfriado
Foram as canções dos verões,
A graça das estrelas azuis.
Na ironia de um inverno vão-se as ilusões,
Que graça há em tanto frio que cobre a luz?
O inverno é tão efêmero que dele não protejo mais,
A máscara é mais fria que um frio de noite sem estrela brilhando.
São mortas reminiscências vivas que cortam como o vento o que era paz.
Uma estrela se apaga e de madrugada fico juntando...
Como as plantas murcham sem reclamar,
Derrete, congela a cada golpe frio um coração a morrer,
Como as aves que voam cantando rasgando o ar,
O inverno era alegria, mas nele não há, apenas inverno torna a ser.
Alex S.B. de Lima
quarta-feira, 3 de junho de 2009
Pé de Guerra, Mão de Deus
"Precisamos ser pacientes, mas não ao ponto de perder o desejo; devemos ser ansiosos, mas não ao ponto de não sabermos esperar" (Max Lucado)Não há o sentimento de estar vivendo no tempo errado, mas sim de viver erroneamente neste tempo. Daí há a esperança de alcançar este lugar que está em algum tempo, já que me parece que este às vezes não é o meu lugar, contudo, percebo que não há muito tempo.
E pensei em tudo isso desordenadamente enquanto a chuva caía naquela manhã sonolenta e nublada de domingo, enquanto os sons do centro da cidade e das portas do comércio subiam com seu grunhido metálico. E os passos rápidos passavam, os pássaros passavam, os carros passavam, o sono passava, a raiva passava e a chuva ia passando enquanto na minha mente se passava o quanto esta existência é efêmera, e de como tomar nota destas lucubrações matinais não faz nada passar e não me traz soluções lógicas e muito menos práticas.
Se eu passo pelo tempo ou o tempo passa por mim, o pouco que sei é que não disponho muito dele, e que muitas outras gerações que pisaram o mesmo chão que hoje piso, deixaram seus potenciais debaixo dele.
Por isso tento não me importar com o descaso, a perfídia e a soberba da vida que torna homens simples em Calígulas.
E ao chegar a casa, enquanto procurava algo doce para comer na cozinha e minha esposa recebia a visita na sala, ouvi a chuva caindo súbita, porém suave e abundante, e então abri a porta dos fundos e saí sem me importar com as gotas d´água que mergulhavam no meu copo de leite com achocolatado em pó; sem me importar em encharcar meus sapatos, meus cabelos, meu relógio e minha alma na chuva enquanto percebia que meu cansaço, frustração e desânimo gerados pela frieza dos relacionamentos e pelo capitalismo que não se importa com a minha dor de cabeça, são pequenos demais diante da mão que traz a chuva, faz cair as mangas pelo chão e enche meus pulmões com cheiro de terra molhada.
Alex S.B. de Lima
Limitado

Eu queria compor notas novas.
Eu tentei escalar este monte.
Queria rimar estes versos,
Ser brasileiro, correto, discreto.
Queria lembrar da música que sonhei.
Queria continuar aquele sonho,
Na verdade, queria dormir, fugir
E redescobrir como se faz rir.
Queria mudar o mundo, meu mundo,
Meu curso, meu caso, meu descaso,
Fotografar o acaso. Cheirar a água,
Deitar em nuvem, abraçar árvores e o vento,
Tocar o coração do Criador e respirar fundo,
Pisar a cama e deitar na grama.
Conter na mão um som de trovão grave e gentil
Que precede a sede de uma chuva sutil.
Queria contar algo que não fosse de mim,
E, ainda assim, queria que não tivesse fim.
Queria o som do trovão para expulsar a água salgada dos olhos;
Mas assim como o verbo, como a canção, como o verso,
Ela não ficou tudo como eu queria.
Alex S.B. de Lima
Planejando ser Humano
Alex S.B.de Lima
Academês que passa.
que o rapaz era um tanto estranho, mas era educado, escrevera peças
teatrais, era leitor voraz, pregava a igualdade, batalhava por melhorias no sistema de educação, enfim...De tanta emoção diante do bilhete que estava sobre sua sisuda mesa com as recomendações sobre o rapaz, a professora Mestra ignorou um outro recado que também ali estava e saiu contente, estava próximo a hora de iniciar a aula, já andava rumo à sala de aula, pensando em como usaria este primor de rapaz para quem sabe despertar um certo interesse, um ciuminho que fosse naquele "bando de academicos desleixados" que possuía, como costumeiramente dizia a seus colegas daquela faculdade periférica e caipira.
terça-feira, 2 de junho de 2009
O rato e o Gato Caolho
"Nunca a
)
verdade ajuda a sofrer menos". (Jean Rostand
- Oi – deixando seu “oi” deslocado no ar.
- Oi – responde o gato ainda sem entender tal atrevimento.
- Você gosta de livros?
- Sim.
- Hum...
- O que foi com teu olho?
- A vida me feriu.
- Que pena!... – após uns quinze minutos de sepulcral silêncio o rato prossegue:
- Tens uma pelagem bonita, posso passar a mã...
- Não! – o gato recua.
- Desculpe, eu só queria... perdão... tenho te observado, parece tão inteligente, és tão belo e...
- Por favor! - interrompe o gato - deixe de ironias!
- Não são ironias! Por que és assim? Acaso é o que fizeram com teu olho? É a vida? Eu posso ajudar, permita-me te ajudar e fazer com que veja como és belo, e como a vida é bela, eu tenho o remédio...
- Mas ratos trazem doenças!
- É... eu posso ser o remédio e o veneno, diz o rato envergonhado.
Deparado com sua fragilidade, o gato aos poucos e com muita resistência se permite ser ajudado e diz ao rato.
- Obrigado por me ajudar, mas, convenhamos, isso não o torna menos rato – e se vai embora.
O rato também se depara com sua fragilidade e limitação, e ali fica.
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
Descrevaneio

Me assusta por ser charmosa,
Não por ser bela.
E quando esse sangue passa mais quente pela artéria,
Eu escrevo,
Me incomoda,
Me esfarela.
E cada má intenção sufocada vira tinta,
Carregada do mal das palavras que eu mesmo juntei.
Confesso, padeço em versos,
Em desventura submerso
No vão que inventei.
Alex Sandro Bambil de Lima
O Coveiro
Estava já havia uma hora na prazerosa atividade da leitura, lendo e deslendo sobre nada, e este nada lhe pesava as pálpebras. Furtivamente levantou-se e foi molhar o rosto na tentativa de afugentar de si o sono sorrateiro, fruto do cansaço que vem de noite; voltou com um ar renovado, até parecia que trocara as vestes, retornara com mais afã ao esconderijo do coveiro.
Fiquei no silêncio sepulcral das páginas corroídas e amareladas, entre ácaros e velhas traças, sob o olhar mórbido do coveiro bibliotecário. Levantei-me e, como não possuía naquela noite objetivos de leitura claros nem a mim mesmo, fui ao coveiro perguntar sobre um livro grande de fotografias pantaneiras que há muito não o via e, ele, com aquela vagarosidade spleen, parecendo “O Corvo” do Poe recitado à meia-noite no inverno, chovendo, com alguma música arrastada do Type O Negative de fundo musical, após um olhar para a pilha de livros que estava a sua esquerda, respondeu:
- Não está aqui, com aquela voz de mordomo sinistro do castelo; uma voz grave, porém fraca; era calvo, vivia com os óculos na ponta do nariz, era dono de um olhar lento, olhos de ressaca – por favor, sem dúvidas machadianas. Aqui refiro-me a ressaca de porre mesmo – contudo, nada escapava daquele olhar naquele ambiente de sussurros, intelectualidades, silenciosas leituras, ociosas leituras, sede de saber, pseudo-intelecualidades e lirismos comedidos.
Retornei com o livro de algum autor defunto nas mãos, decepcionado com o descaso do coveiro, eu estava, na verdade, fugindo de uma aula que me causava dores nos adjuntos abdominais; ao olhar para a janela do oráculo, com a alma alhures, fiquei a imaginar como seria se Gustavo Azuaga e eu tivéssemos, há algum tempo atrás, jogado aquele gato preto pela janela da biblioteca.
O plano era perfeito, o corredor estava solitário e o gato tinha o tamanho ideal para passar pela fresta da janela e cair no meio das grandes mesas de leitura. Porém, a poucos momentos da execução do plano, um vulto aparece acendendo um cigarro sabor câncer. Era ele: o coveiro, que aparecera em meio a fumaça do próprio cigarro; aquela fumaça lenta, como ele, parecia conhecer nosso intento de romper o silêncio e a harmonia no oráculo do universo pensante da sociedade.
Era o equilíbrio e a desordem, a teoria do caos bem ali. Todos ali, até a fumaça sabia a traquinagem academicista que estava por vir, ouso pensar que até o gato sabia, mas ficou tudo bem para o bichano, o coveiro jogou terra em nossa molecagem.
Fiquei escrevendo ao redor do sangue, lutando com palavras, imaginando crônicas, contos, romances, pensando em milhares de coisas que poderiam (ou não) serem feitas naquele momento, numa terrível dúvida digna de asno de Buridan, porém permaneci lendo e deslendo sobre nada, sob o olhar do coveiro bibliotecário, enterrando tesouros de reminiscências e tapando as covas que outrora eu mesmo cavei na alma.
Alex Sandro Bambil de Lima
Flores e Horrores

Planta rubra com sangue de espinho e dor.
Ver com languidez no olhar o céu toldar,
Todo cinza chumbo num segundo encharcar.
Vendaval envolve veias em vão,
Capcioso vento revolve poeira.
E a voz se vai sem canção,
Sorrindo na ironia ligeira.
Friamente frio foge do fogo;
E o inverno é tão bom quando escurece de novo.
Silêncio acalma devagar e a alma divaga,
É como vinho: é doce, mas embriaga.
Ponteiros vagarosos enferrujados,
Em ferros afiados desafia.
Música e momentos, pensamentos alados.
Dos horrores, de todas as cores flores faria.
(Alex Sandro Bambil de Lima)
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
O Xerimbabo de Tianastácia

Deixa-me ver... eram dois parentes que mais tarde adotaram um amigo, destes excêntricos pensadores. Dois da capital e um da floresta. Os três que vieram para a terra que “se não está perto do Sol está perto do inferno” – como pilharia um deles; lugar onde durante o ano faz calor, mormaço e uma semana de inverno, onde se vê mais estrelas e maior se vê a lua, onde timbú anda na rua, onde as capivaras pastam na esquina e às duas da manhã em frente de casa é só cair na piscina. E você não gosta de rimas fáceis, métricas mal feitas e prólogos longos? Tudo bem, nenhum dos três dormia cedo. Diversão e sobrevivência academicista é o nome do jogo.
Lembro-me bem daquela casa de corredor comprido, com crostas de cera vermelha pelos cantos, sobrepostas umas sobre as outras, parecendo exibir o esmero feminino das antigas moradoras. O pé de Oiti fazendo sujeira, fazendo sombra, fazendo coro às mangueiras, pés de eucalipto, a mata ciliar e as outras árvores que desconheço-lhes a graça, mas que sou grato pela canção das folhas nas tardes quentes sem televisão depois do almoço salgado, onde os pássaros faziam acordes cantando letras que faziam os males escorrerem pelo piso da sala, e o velho e sujo ventilador que tentava levar no vento a saudade de quem ficou no campo grande das nostalgias.
Ao lado direito, na esquina morava o ancião que nos temia, aliás, a impressão que tinha era de que a rua inteira nos temia e se entreolhava num ar de graça, circunspecção e desdém ao mesmo tempo enquanto passávamos.
À esquerda estava a outra metade da casa, com habitantes que de tão apagadas não merecem menção aqui; avançando ainda por este lado, estava a distinta, solitária e reclusa senhora que morava na casa que tinha uma antena parabólica (era a única da rua) grades altas e as paredes pintadas de uma cor que me lembra yogurte de salada de frutas. Pouco se sabia a seu respeito, aliás, pouco se via aquela magra senhora, exceto quando algum táxi a trazia e a levava sabe Deus de onde e para onde.
Ao lado desta morava minha vizinha preferida: uma senhora baixinha, morena, que parecia que o rosto que Deus lhe entregara já vinha com um sorriso embutido, daquele tipo que é capaz de te cumprimentar todas as vezes que se passa na calçada dela. Todo sagrado dia em que eu saia a passos rápidos de casa para o serviço ela estava lá, pronta a me dar um “bom dia”, segurando uma vassoura na mão varrendo as poucas folhas que se juntaram sob sua calçada durante a madrugada. E seu esposo, um senhor sisudo, discreto, sempre bem alinhado usando calça social clara sempre em algum tom que ou era bege ou cinza, camisa de manga curta com listras discretas entre azul e branco, óculos redondos e um chapéu de palha. Ele sempre fingia que não nos via, ao contrário de sua senhora, contudo, insistentemente o cumprimentávamos até que ele cedia e respondia com algum grunhido. É uma figura curiosa.
Todas as sagradas manhãs, perto da ponte, durante o movimento matinal de mães levando suas crianças para a escola e eu, indo trabalhar como muitos que por ali transitavam sem reparar na beleza do rio que corria ali debaixo, lá estava ele. Passeando sem pressa com as mãos nas costas, vez em vez parando, olhando para algum movimento curioso, olhando um grupo de meninos e meninas falando alto, ele observava os pássaros, olhando da ponte a pescaria dos que estavam ali desde a madrugada e, por uma vez o vi chutando com aquela simplicidade matuta uma garrafa plástica que estava no meio da praça, parecia dizer: “Isto não faz parte da natureza”.
Ao lado da casa deste casal singular estava a fruta onde heróica ladrava no quintal, e, adiante, uma casa que mais vivia fechada do que aberta e que de vez em quando aparecia um imponente geep azul estacionado a frente. Encerrando esta descrição da rua, na esquina estava a Câmara, de onde para a alegria dos vizinhos (ou não) de lá se podia ouvir o som que vinha lá de casa, vindo do aparelho de som que rompeu a monotonia e, diga-se de passagem, a tranqüilidade da casa (do quarteirão) quando compramos e trouxemos no braço aquele aparelho pesado: eu, Minínu, Sdrúxulo e Fanalha. Tudo para inaugurar tocando Mortification.
- Hoje eu vou dormir cedo...
- (risos)...Melhor seria se você não tivesse dito nada!!!
E era dito e feito! Esta frase dita por qualquer um dos que estivesse debaixo do teto daquela casa significava que três da manhã era o horário mínimo em que se ia dormir.
Às vezes dormíamos de madrugada, às vezes não dormíamos... fazendo o que? Bem, jogando bolas de tênis na parede, fazendo rinhas de formigas versus cupins no jardim da Igreja Matriz, jogando conversa fora, roubando placas, jogando videogame que, vivia conectado ao aparelho de som e cantávamos de cor todas as músicas que o game possuía, andando de skate ou ainda juntando dinheiro para comprar alguns biscoitos, algum suco, ou cozinhando na nossa culinária alternativa.
Até que o gás acabou e ninguém tinha sequer um tostão furado. Problema? Não! Não pra quem queria comer comida no fogão à lenha.
- Vamo na pizzaria?
- Vamo, mas vamo esdrúxulo!
E isso resultou em um indo a uma refinada pizzaria de cueca samba-canção, tênis amarelo, camisa azul e chapéu preto. Outro indo de coturno, bermuda de tactel e camisa regata, e o outro... bem... o outro era o Sdrúxulo mesmo.
(Alex Sandro B. de Lima)
Urutau

sobre tentar escrever vesos.”
(Alex Sandro Bambil de Lima)
Urutau no canto torto,
Canhestro alado no canto desafinado;
Inerte, sombrio, absorto,
Amuado sob o tronco lascado.
Larga vez em vez esta voz...
Você não tem asas,
Expulsa esta lira atroz
Que cora a tez com rimas rasas.
Admiração e espanto solfejam seu canto noturno
É um pranto quando vê a estrela brilhar,
No trovão que esconde seu canto taciturno
Na chuva se lança no fel da lembrança de quem não está.
Canta assim para si mesmo,
Mesmo que seja a esmo,
Um verso tosco numa nota menor qualquer,
Na tempestade se desfazia sua epifania de mulher.
segunda-feira, 11 de agosto de 2008
Um ícone, um mito, uma lenda viva!
Difaculdade
Ainda há esperança! Era pra ser apenas mais uma noite normal, apenas mais uma aula normal, porém, passei a assistir a aula com a mesma atenuada atenção que extraio um tatu das narinas.
Um ruído irrompe na mórbida aula (...) nem o pobre celular resistiu à dificuldade de faculdade de analisar a vida de poeta. Enquanto isso olho para o quadro verde que a escola me ensinou que é negro e, olhando para a luz falsa das lâmpadas procuro a esperança nos rostos acanêmicos; um andrógeno de beiça gigante, uma gigante, uma com uma guavira na testa, uma esquizofrênica, um duende ninfomaníaco, Abile de Bob e um abominável violonista da escuridão, enquanto meu vizinho se desespera com a tinta de caneta azul que o acompanhou durante boa parte de sua vida de estudante pintando o surrealismo dos sons e das vozes que não estão interessadas em aula alguma.
Numa cadeira, uma gota de tinta azul aguardando zoar alguém... eu matei uma esperança; mas lá fora, ao redor das luzes falsas da praça ainda há esperança, muito além de essa ser apenas mais uma aula comum.
Se não, pelo menos vamos ficar na esperança de uma outra e verdinha esperança entrar voando pelo quadro verde furado na parede, preenchendo a monotonia de mais uma noite perdida, em uma sala acanêmica e caipira.
(Gustavo Aurélio e Alex Sandro Bambil)
Difaculdade II
Minha janela da faculdade dá para a rua, minha dificuldade na faculdade é sair da lua. Mas como? Se a rua tanto mais me atrai? Mais que o interior emparedado branco enquadro negro, o que me puxa é o interior colorido pantaneiro cheio de vida.
Lá fora vejo a tia que mora no interior, a amável tia que nem imagina que está neste texto; texto este que é uma manifestação minha, assim como a água que ferve no interior do milho fazendo-o virar pipoca, a pipoca da tia que me alimenta mais que o corpo, também o espírito quando suas doces palavras, mais que suas pipocas vem nos confortar e fazer-nos refletir que existe muito além desta panela de gente empipocada, nos caminhos de paralelepípedos, que consiste em ser o resumo momentâneo da vida aquidauanense, onde muitos motoristas de tinta estão estacionados. Mas não mais do que quinze minutos para não levar multa, seguindo em frente e levando de carona este momento consagrado para a eternidade em nossa bagagem.
Fora do ar

Porque eu sou tão desligado as pessoas se irritam.
Eu ando devagar para provocar a chuva a me alcançar
E provoco os céticos exprimidos sob os toldos que têm medo de se molhar.
E dormir é me anular, é fugir, é esquecer, e eu sempre me esqueço,
porque sou desligado demais.
Poetizar e musicar é bálsamo para o cerne da alma;
Eu tento lembrar de não esquecer as chaves, as roupas pela casa,
as meias sem pares, as meias palavras, a alma na sala e o vilão no sofá,
mas eu sou desligado demais.
Eu ando na tempestade sem medo da chuva, mas esbarro no medo dos raios,
porque sou desligado demais.
Prometo quebrar, revolucionar, mas abandono a alma nas canções,
durmo nos acordes,
acordo no silêncio,
foco violões, toco nas neblinas das manhãs, aumento o volume,
ligo o chuveiro, porque sou desligado demais.
às vezes não ligo, só ascendo.
Não que eu não ligue, apenas quero esquecer,
e eu sempre me esqueço,
porque sou desligado demais.
O Poeta e a Lixeira

Da ira, do erro tolo, da lágrima por mim mesmo reprimida com autoritarismo.
Vejo-me quebrando, mas não rompendo este mal...
Trêmulo, choroso, covarde e inconseqüente.
Escurece e meu grito se mistura a esta escuridão.
Minhas mãos frias, machucadas e manchadas com sentimentos dormentes meus.
É sempre assim, preciso ver-me estilhaçando madeira contra árvore
De qualquer maneira e sentir dilacerando esta lágrima gelada
percorrendo o tortuoso caminho do íntimo do coração
Rasguei a máscara sem pudor como uma frase ébria de blues
no fim de um dia de cão.
Coração, oração e implosão!
É sempre assim, eu sei...
É quase inútil acorrentar o heteronômio no calabouço,
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