quinta-feira, 25 de março de 2010

Minha vida de Charlie Brown


"Peixe fora d'água, borboletas no aquário" (Humberto Gessinger)

       Eu era a criança melancólica que não corria, não soltava pipa, não brincava de "bulita", não jogava futebol por não aguentar correr, era o alvo de risadas por não saber manusear bem um lápis de cor na idade em que todo mundo fazia belos rabiscos, gostava da parceria dos livros, era o menor da turma, e não sabia nadar.
      Continuo não correndo, soltar pipa na minha idade não vai pegar bem, e a ausência do futebol na minha vida eu compensei quando descobri que era músico, não sei o que são cores primárias e não sei sequer desenhar uma linha reta num papel e continuo não sendo o maior de qualquer turma que participe. Já tive medos bizarros como medo de subir em escada rolante... esse eu superei a pouco tempo atrás, mas sobre não saber nadar e o medo da água e de gente aglomerada ao redor dela... é... esse medo ainda resiste.
      Tudo começou em Guarapari, no Espírito Santo, quando eu criança diante daquela imensidão de mar "fui pra galera" e respirei água salgada. Depois, na adolescência, como se não bastasse o complexo de não querer exibir o corpo, um idiota me empurra na piscina, e respirei água doce. De lá pra cá...
  
      Domingo, piscina, sol de final de verão, alegria, som alto, e o que eu mais queria além de distância da água, era meu violão. Mas já que ele não estava lá, peguei o celular, e a primeira do "aleatório" foi "Smoke on the water" (na versão do Sepultura) - que é uma música que não combina muito com esse tipo de cenário, mas tudo bem, visto que eu também pareço não combinar muito.
      Aí consigo ler a legenda do pensamento das pessoas me chamando de anti social... não é culpa minha meus caros, mas não pretendo cair na água tão cedo. Ainda fico lá, parecendo um peixe fora d... não!... porque lugar de peixe é na água mesmo...
                                                               *(suspiro)*... "Que puxa!"
  
(AlexSandroBambiL)




       Eu tenho um ermo enorme dentro do olho. Por motivo do ermo não fui um menino peralta. Agora tenho saudade do que não fui. Acho que o que faço agora é o que não pude fazer na infância. Faço outro tipo de peraltagem. Quando eu era criança eu deveria pular muro do vizinho para catar goiaba. Mas não havia vizinho. Em vez de peraltagem eu fazia solidão. Brincava de fingir que pedra era lagarto. Que lata era navio. Que sabugo era um serzinho mal resolvido e igual a um filhote de gafanhoto.
Cresci brincando no chão, entre formigas. De uma infância livre e sem comparamentos. Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação.
Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas. Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina. É um paradoxo que ajuda a poesia e que eu falo sem pudor. Eu tenho que essa visão oblíqua vem de eu ter sido criança em algum lugar perdido onde havia transfusão da natureza e comunhão com ela. Era o menino e os bichinhos. Era o menino e o sol. O menino e o rio. Era os meninos e as árvores.

(Manoel de Barros. Memórias Inventadas. A Terceira Infância.)




quarta-feira, 24 de março de 2010

Por um fio



A linha do horizonte diante dos meus olhos se estica.
Essa linha junta a terra, o firmamento e as nuvens de véu,
Por um fio nessa saudade que aqui fica,
A corda não aguenta e rasga a quimera no meu céu.

A linha do horizonte adormece este olhar,
Que busca o teu que quem sabe além,
Depois deste azul que some devagar,
Pode estar também o meu a procurar.

É vermelho, branco, azul...
É rosa do meu planeta que conto as cores.
Órion se vai no inverno, fica o Cruzeiro do Sul.
Te encontro pelas estrelas ou pelo pólen das flores?

A linha do horizonte toca o céu e o chão,
Ah anjo! essa linha que não une mortais.
Quando mais te verei, meu coração?
Seca essa lágrima que cai, quando além deste horizonte te vais.

(AlexSandroBambiL)

É fogo!


"...é fogo que arde sem se ver; É ferida que dói e não se sente..." (Camões)


Azul, verde, vermelho, arde!
É fogo!
Inflama e se ateia cá dentro,
Mesmo que haja neve sobre as palavras indiferentes.
É ausência, é tema de poeta...
É fogo!
Salivando as línguas dessas chamas, desse cheiro caloroso onde a alma deseja se queimar...
Acenda o rastro de pólvora que deixei! E me abrasa forte!
A boca que chama por ti seca, tenho um coração em chamas, nas mãos,
É suor e sangue murmurando sua ausência mesmo em presenças sobrenaturais.
Me chama que consome...
Chama pra me consumir devagar.

(AlexSandroBambiL)
foto extraída do site: www.chromasia.com

"Sol e chuva... não me importa casamento de quem é, prefiro as nuvens de chumbo."
(AlexSandroBambiL)

terça-feira, 23 de março de 2010

Chuva de Outono




"Volto a casa. Que tristeza! Inda é maior minha dor… Vem depressa. A natureza só fala de ti, amor!" (Florbela Espanca)


Agora a chuva umedece as paredes pintadas,
O tempo é linear, minhas letras e canções caladas,
Estalam nesse vento que entra gelada infelicidade
E racham a pele seca de saudade.

Acalenta-me flor! Antes de meu sorriso findar.
Posso sem asas em teu céu púrpura voar...
Anjo! Suspiro teus olhos diamante,
Teu sorrir é a liberdade de uma vida ofegante.

Canções que te tocam me chamam,
Choram, calejam, os dedos inflamam.
Cortante vento de assovio fino,
Frio, mesa, café e cappuccino.

Lágrimas empilhadas sem sincronia,
Hirto, antes prefiro a hipotermia
Do que sufocar o sofrer!
Por ti vivo tantas vezes for, pra de saudade morrer.
(AlexSandroBambiL)

sexta-feira, 12 de março de 2010

Música que ninguém vê


Como uma flor a seu perfume, estou atado à tua lembrança imprecisa. (Plablo Neruda)

Alguns acordes exigem silêncio...

Como quando sorri, é algo tão lindo que os sons a sua volta parecem sumir.

Alguns silêncios são sinfonias...
Exigem que se faça necessário o que não é música diminuir.

Algumas músicas exigem silêncio...
E algumas canções possuem notas fermatadas por uma saudade daquilo que não existiu.

Alguns solfejos são esse silêncio manifesto...
Como quando tento debalde entoar a canção que soa em mim quando te vejo passar, em arranjos que ninguém jamais ouviu...

Alguns acordes surgem dessa saudade semitonada...
E quando caminhas parece o fazer sob uma trilha sonora, de uma canção só sua que vem até mim,
E ouço como se me fosse todo coração ouvido e toda sua melodia viesse acompanhada em tons de jasmim.

Alguma saudade desafinada me exige que te transformes em partitura de canção amorosa...
No silêncio dissonante, tua ausência cria em mim uma canção...
Tão melodiosa, tão fina, mas tão grandiosamente dolorosa,
Que mal cabe na mão, na voz... nas cordas do violão.

AlexSandroBambiL

sexta-feira, 5 de março de 2010

Lugar sem nome


"Eu grito a minha dor, a minha dor imensa! Esta saudade enorme, esta saudade imensa" (Florbela Espanca)


Assentado num lugar sem nome,
A queda é Dante!
A saudade acerta a vida inteira,
O olhar errante.

E as ilusões impublicáveis da minha mente
Não foram cuspidas boca afora;
São tantas entradas quando me abres a porta de repente
Mas meu tempo demente é todo teu sempre e agora.

Aquece, talvez em todo outono verão que
Sem ti há só inverno cá dentro em todo lado.
As folhas grudadas na mente e no meu corpo são,
Nostalgias aladas ferindo um Prometeu calado.

Ah! Poesia que lá numa flor lançou meu coração,
Impetuosa sussurrou: “Vá buscar, bicho homem!”
Ficou lá pra onde meus sons e silêncios entoados são
Nas pétalas pra onde meus versos escorrem e se escondem.

AlexSandroBambiL

Os opostos...


Eu paixão
Ela poesia

Eu inverno
Ela primavera

Eu elucubração
Ela perfeição

Eu rocha
Ela diamante

Eu cappuccino
Ela café

Eu frio
Ela chuva

Eu passado
Ela pretérito mais-que-perfeito

Eu escrevendo
Ela deslendo

Eu moleque
Ela moça

Eu tela
Ela tinta

Eu Coca
Ela suco

Eu ogro
Ela fada

Eu lágrima
Ela sorriso

Eu tempestade
Ela neblina

Eu guitarra
Ela violão

Eu plebeu
Ela nobre

Eu brisa
Ela vento

Eu reticências
Ela vírgula

Eu palavra
Ela rima

Eu sustenido
Ela bemol

Eu mar
Ela farol

Eu abelha
Ela flor

Eu sempre ela
Ela sempre em mim... sempre.

AlexSandroBambil

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Rosa


  
"Não me importo em me rasgar em teus espinhos, desde que seu perfume se apegue a mim."
(Alex BambiL)

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Embrace

(Retiro Jovem no Acampamento Betânia)

sábado, 1 de agosto de 2009

Foto: Alex S.B. de Lima
"Tua fineza, ternura, poder, harmonia, misericórdia, e acima de tudo amor... obra de tuas mãos, meu Senhor, meu bom pastor... o supremo criador, e sem Ti nada se realizou" (Ministério Trio)

Foto: Alex S.B. de Lima

"Poesia não é para compreender, mas para incorporar. Entender é parede: Procure ser árvore" (Manoel de Barros)

Fall

Foto: Alex S.B. de Lima - Vista dos fundos do Acampamento Betânia

Foto: Alex S.B. de Lima - Honestamente, não sei o que é nem para que serve, está no barranco do rio Aquidauana, e pensei que daria uma foto legal xD

Apocalyptica

Foto: Alex S.B. de Lima - Vista de uma das torres da Igreja Matriz em Aquidauana-MS

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Queda Livre



"As nuvens podem esconder uma estrela, mas elas passam e a estrela fica."
-
Lucas Vauvenargues

Uns prelúdios de inverno, tudo tão denso no ar que respiro... a graça do bom perfume que te acompanha parece desenhar e desdenhar de qualquer beleza terrestre.

Preso, caindo em queda livre...

Esculpi as nuvens mais brancas com as formas do teu sorriso estrela, e as mais cinzas semelhantes aos dias de tua ausência... enchi uma garrafa com meus versos, e saí bebendo.


Alex Sandro Bambil de Lima

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Resfriado

"No coração do inverno, a única folha no ramo luta contra o vento" (Stefan Theodoru)

Foram as canções dos verões,

A graça das estrelas azuis.

Na ironia de um inverno vão-se as ilusões,

Que graça há em tanto frio que cobre a luz?

O inverno é tão efêmero que dele não protejo mais,

A máscara é mais fria que um frio de noite sem estrela brilhando.

São mortas reminiscências vivas que cortam como o vento o que era paz.

Uma estrela se apaga e de madrugada fico juntando...

Como as plantas murcham sem reclamar,

Derrete, congela a cada golpe frio um coração a morrer,

Como as aves que voam cantando rasgando o ar,

O inverno era alegria, mas nele não há, apenas inverno torna a ser.

Alex S.B. de Lima

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Pé de Guerra, Mão de Deus

"Precisamos ser pacientes, mas não ao ponto de perder o desejo; devemos ser ansiosos, mas não ao ponto de não sabermos esperar" (Max Lucado)

Não há o sentimento de estar vivendo no tempo errado, mas sim de viver erroneamente neste tempo. Daí há a esperança de alcançar este lugar que está em algum tempo, já que me parece que este às vezes não é o meu lugar, contudo, percebo que não há muito tempo.
E pensei em tudo isso desordenadamente enquanto a chuva caía naquela manhã sonolenta e nublada de domingo, enquanto os sons do centro da cidade e das portas do comércio subiam com seu grunhido metálico. E os passos rápidos passavam, os pássaros passavam, os carros passavam, o sono passava, a raiva passava e a chuva ia passando enquanto na minha mente se passava o quanto esta existência é efêmera, e de como tomar nota destas lucubrações matinais não faz nada passar e não me traz soluções lógicas e muito menos práticas.
Se eu passo pelo tempo ou o tempo passa por mim, o pouco que sei é que não disponho muito dele, e que muitas outras gerações que pisaram o mesmo chão que hoje piso, deixaram seus potenciais debaixo dele.
Por isso tento não me importar com o descaso, a perfídia e a soberba da vida que torna homens simples em Calígulas.
E ao chegar a casa, enquanto procurava algo doce para comer na cozinha e minha esposa recebia a visita na sala, ouvi a chuva caindo súbita, porém suave e abundante, e então abri a porta dos fundos e saí sem me importar com as gotas d´água que mergulhavam no meu copo de leite com achocolatado em pó; sem me importar em encharcar meus sapatos, meus cabelos, meu relógio e minha alma na chuva enquanto percebia que meu cansaço, frustração e desânimo gerados pela frieza dos relacionamentos e pelo capitalismo que não se importa com a minha dor de cabeça, são pequenos demais diante da mão que traz a chuva, faz cair as mangas pelo chão e enche meus pulmões com cheiro de terra molhada.

Alex S.B. de Lima


Limitado




"O sofrimento é um megafone, é Deus pra mim gritando que eu não sou o Super-Homem." (Marco A. Afonso)



Eu queria compor notas novas.
Eu tentei escalar este monte.
Queria rimar estes versos,
Ser brasileiro, correto, discreto.

Queria lembrar da música que sonhei.
Queria continuar aquele sonho,
Na verdade, queria dormir, fugir
E redescobrir como se faz rir.

Queria mudar o mundo, meu mundo,
Meu curso, meu caso, meu descaso,
Fotografar o acaso. Cheirar a água,
Deitar em nuvem, abraçar árvores e o vento,
Tocar o coração do Criador e respirar fundo,
Pisar a cama e deitar na grama.

Conter na mão um som de trovão grave e gentil
Que precede a sede de uma chuva sutil.
Queria contar algo que não fosse de mim,
E, ainda assim, queria que não tivesse fim.
Queria o som do trovão para expulsar a água salgada dos olhos;
Mas assim como o verbo, como a canção, como o verso,
Ela não ficou tudo como eu queria.


Alex S.B. de Lima


Planejando ser Humano

"aquEle que era maior que o univrso tornou-se um embrião microscópico. E Ele, que sustém o mundo com uma palavra, escolheu depender da nutrição de uma jovem". (Max Lucado)



Escrever sobre ele não é fácil, acredito que nunca foi. Mais fácil é escrever sobre o tempo, poetizar estações, meus achismos, devaneios, contradições que se debruçam sobre poemas no lixo, sentidos extremos, medianos que têm flores ou nuvens de chumbo como fundo.


Talvez mais fácil fora a quem comeu com ele, deitou em seu peito, ou sentiu suas mãos divinamente humanas derrubando escamas dos olhos.


Difícil definir limitadamente quem é ilimitado, mais fácil sobre mim pois tenho limites, e acredite, ele escolheu morar num lugar limitado. Difícil porque aquele que se reduziu a homem sem deixar de ser Deus, e planejou ser totalmente humano, ainda assim, não se define em letras.




Alex S.B.de Lima








Academês que passa.

"Quem vê cara não vê o que só Deus pode ver" (Bp. Zé Bruno)
Era professora universitária respeitada, exercia a profissão havia 13 anos, daquelas que falavam pausada e perfeitamente a nossa língua portuguesa, "macaqueando a sintaxe lusíada" com esmero em cada palavra proferida com os olhos firmes por cima dos óculos que viviam na ponta do nariz. Seu andar nos corredores daquele universo pensante da sociedade era tão firme e decidido que parecia um metrônomo.
Certa manhã recebera a notícia de que viria para a turma onde ela lecionava um acadêmico que vinha transferido da cidade de Pantuana das Cuidas, o rapaz vinha precedido de uma fama sem precedentes (!). Notas excelentes, músico, cronista, poeta, havia ainda quem dissesse que tentou envolver-se com política a fim de lutar pelos direitos do povo de Pantuana, seus professores disseram
que o rapaz era um tanto estranho, mas era educado, escrevera peças
teatrais, era leitor voraz, pregava a igualdade, batalhava por melhorias no sistema de educação, enfim...
De tanta emoção diante do bilhete que estava sobre sua sisuda mesa com as recomendações sobre o rapaz, a professora Mestra ignorou um outro recado que também ali estava e saiu contente, estava próximo a hora de iniciar a aula, já andava rumo à sala de aula, pensando em como usaria este primor de rapaz para quem sabe despertar um certo interesse, um ciuminho que fosse naquele "bando de academicos desleixados" que possuía, como costumeiramente dizia a seus colegas daquela faculdade periférica e caipira.
Durante a aula, enquanto falava de operadores argumentativos e outros bichos que causam dores nos adjuntos abdominais, foi interrompida por leves três batidas na porta, ela com ar de enfado e irritação por ser interrompida abre a porta e logo se desfaz suas feições de megera. Estava diante dela um rapaz polido, bem vestido, de boa aparência, que timidamente perguntou se poderia entrar para assistir aula, mais tímido ficou por ser recebido efuzivamente pela professora que mal saindo da porta mostrou o rapaz para a sala e disse que aquele seria o novo colega, que a classe teria muito o que aprender com ele, e que, a partir daquele momento ele seria seu monitor, auxiliar, que era de alunos como estes que aquela cidade precisava, dedicados, inteligentes, aplicados, fazedores de qualquer trabalho de duas páginas e, em meio a tanta rasgação de seda, a secretária abre a porta, diz a professora que ela não leu outro bilhete que havia sobre sua mesa que dizia que um outro rapaz havia de entrar em sua classe, dois, num só dia. A professora repara que a secretária está acompanhada por um "bicho-grilo", cabeludo, sandálias de couro, barba por fazer, uma camiseta do Jimmy Hendrix com a marca do varal e uma mochila magra, sorridente, ele estende a mão para a professora e diz:
- Prazer, sou seu novo aluno, que veio de Pantuana das Cuidas.
Alex S.B de Lima

terça-feira, 2 de junho de 2009

O rato e o Gato Caolho

"Nunca a
verdade ajuda a sofrer menos". (
Jean Rostand)

O rato surpreende o gato caolho (tudo bem, deveria ser o contrário), e num misto de profunda admiração, receio, medo e desejo de se aproximar diz:

- Oi – deixando seu “oi” deslocado no ar.
- Oi – responde o gato ainda sem entender tal atrevimento.
- Você gosta de livros?
- Sim.
- Hum...
- O que foi com teu olho?
- A vida me feriu.
- Que pena!... – após uns quinze minutos de sepulcral silêncio o rato prossegue:
- Tens uma pelagem bonita, posso passar a mã...
- Não! – o gato recua.
- Desculpe, eu só queria... perdão... tenho te observado, parece tão inteligente, és tão belo e...
- Por favor! - interrompe o gato - deixe de ironias!
- Não são ironias! Por que és assim? Acaso é o que fizeram com teu olho? É a vida? Eu posso ajudar, permita-me te ajudar e fazer com que veja como és belo, e como a vida é bela, eu tenho o remédio...
- Mas ratos trazem doenças!
- É... eu posso ser o remédio e o veneno, diz o rato envergonhado.
Deparado com sua fragilidade, o gato aos poucos e com muita resistência se permite ser ajudado e diz ao rato.
- Obrigado por me ajudar, mas, convenhamos, isso não o torna menos rato – e se vai embora.
O rato também se depara com sua fragilidade e limitação, e ali fica.
Alex S.B de Lima

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Descrevaneio


A perfídia que se esconde em meu heteronômio me assombra,
Me assusta por ser charmosa,
Não por ser bela.

E quando esse sangue passa mais quente pela artéria,
Eu escrevo,
Me incomoda,
Me esfarela.

E cada má intenção sufocada vira tinta,
Carregada do mal das palavras que eu mesmo juntei.

Confesso, padeço em versos,
Em desventura submerso
No vão que inventei.

Alex Sandro Bambil de Lima

O Coveiro

Foto: Blog Tinta China - O blog da GRAFAR

Estava já havia uma hora na prazerosa atividade da leitura, lendo e deslendo sobre nada, e este nada lhe pesava as pálpebras. Furtivamente levantou-se e foi molhar o rosto na tentativa de afugentar de si o sono sorrateiro, fruto do cansaço que vem de noite; voltou com um ar renovado, até parecia que trocara as vestes, retornara com mais afã ao esconderijo do coveiro.
Fiquei no silêncio sepulcral das páginas corroídas e amareladas, entre ácaros e velhas traças, sob o olhar mórbido do coveiro bibliotecário. Levantei-me e, como não possuía naquela noite objetivos de leitura claros nem a mim mesmo, fui ao coveiro perguntar sobre um livro grande de fotografias pantaneiras que há muito não o via e, ele, com aquela vagarosidade spleen, parecendo “O Corvo” do Poe recitado à meia-noite no inverno, chovendo, com alguma música arrastada do Type O Negative de fundo musical, após um olhar para a pilha de livros que estava a sua esquerda, respondeu:
- Não está aqui, com aquela voz de mordomo sinistro do castelo; uma voz grave, porém fraca; era calvo, vivia com os óculos na ponta do nariz, era dono de um olhar lento, olhos de ressaca – por favor, sem dúvidas machadianas. Aqui refiro-me a ressaca de porre mesmo – contudo, nada escapava daquele olhar naquele ambiente de sussurros, intelectualidades, silenciosas leituras, ociosas leituras, sede de saber, pseudo-intelecualidades e lirismos comedidos.
Retornei com o livro de algum autor defunto nas mãos, decepcionado com o descaso do coveiro, eu estava, na verdade, fugindo de uma aula que me causava dores nos adjuntos abdominais; ao olhar para a janela do oráculo, com a alma alhures, fiquei a imaginar como seria se Gustavo Azuaga e eu tivéssemos, há algum tempo atrás, jogado aquele gato preto pela janela da biblioteca.
O plano era perfeito, o corredor estava solitário e o gato tinha o tamanho ideal para passar pela fresta da janela e cair no meio das grandes mesas de leitura. Porém, a poucos momentos da execução do plano, um vulto aparece acendendo um cigarro sabor câncer. Era ele: o coveiro, que aparecera em meio a fumaça do próprio cigarro; aquela fumaça lenta, como ele, parecia conhecer nosso intento de romper o silêncio e a harmonia no oráculo do universo pensante da sociedade.
Era o equilíbrio e a desordem, a teoria do caos bem ali. Todos ali, até a fumaça sabia a traquinagem academicista que estava por vir, ouso pensar que até o gato sabia, mas ficou tudo bem para o bichano, o coveiro jogou terra em nossa molecagem.
Fiquei escrevendo ao redor do sangue, lutando com palavras, imaginando crônicas, contos, romances, pensando em milhares de coisas que poderiam (ou não) serem feitas naquele momento, numa terrível dúvida digna de asno de Buridan, porém permaneci lendo e deslendo sobre nada, sob o olhar do coveiro bibliotecário, enterrando tesouros de reminiscências e tapando as covas que outrora eu mesmo cavei na alma.

Alex Sandro Bambil de Lima


Flores e Horrores




Ponta de caneta fere a pétala que era flor,
Planta rubra com sangue de espinho e dor.
Ver com languidez no olhar o céu toldar,
Todo cinza chumbo num segundo encharcar.

Vendaval envolve veias em vão,
Capcioso vento revolve poeira.
E a voz se vai sem canção,
Sorrindo na ironia ligeira.

Friamente frio foge do fogo;
E o inverno é tão bom quando escurece de novo.
Silêncio acalma devagar e a alma divaga,
É como vinho: é doce, mas embriaga.

Ponteiros vagarosos enferrujados,
Em ferros afiados desafia.
Música e momentos, pensamentos alados.
Dos horrores, de todas as cores flores faria.



(Alex Sandro Bambil de Lima)

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

O Xerimbabo de Tianastácia



Deixa-me ver... eram dois parentes que mais tarde adotaram um amigo, destes excêntricos pensadores. Dois da capital e um da floresta. Os três que vieram para a terra que “se não está perto do Sol está perto do inferno” – como pilharia um deles; lugar onde durante o ano faz calor, mormaço e uma semana de inverno, onde se vê mais estrelas e maior se vê a lua, onde timbú anda na rua, onde as capivaras pastam na esquina e às duas da manhã em frente de casa é só cair na piscina. E você não gosta de rimas fáceis, métricas mal feitas e prólogos longos? Tudo bem, nenhum dos três dormia cedo. Diversão e sobrevivência academicista é o nome do jogo.


Lembro-me bem daquela casa de corredor comprido, com crostas de cera vermelha pelos cantos, sobrepostas umas sobre as outras, parecendo exibir o esmero feminino das antigas moradoras. O pé de Oiti fazendo sujeira, fazendo sombra, fazendo coro às mangueiras, pés de eucalipto, a mata ciliar e as outras árvores que desconheço-lhes a graça, mas que sou grato pela canção das folhas nas tardes quentes sem televisão depois do almoço salgado, onde os pássaros faziam acordes cantando letras que faziam os males escorrerem pelo piso da sala, e o velho e sujo ventilador que tentava levar no vento a saudade de quem ficou no campo grande das nostalgias.


Ao lado direito, na esquina morava o ancião que nos temia, aliás, a impressão que tinha era de que a rua inteira nos temia e se entreolhava num ar de graça, circunspecção e desdém ao mesmo tempo enquanto passávamos.


À esquerda estava a outra metade da casa, com habitantes que de tão apagadas não merecem menção aqui; avançando ainda por este lado, estava a distinta, solitária e reclusa senhora que morava na casa que tinha uma antena parabólica (era a única da rua) grades altas e as paredes pintadas de uma cor que me lembra yogurte de salada de frutas. Pouco se sabia a seu respeito, aliás, pouco se via aquela magra senhora, exceto quando algum táxi a trazia e a levava sabe Deus de onde e para onde.


Ao lado desta morava minha vizinha preferida: uma senhora baixinha, morena, que parecia que o rosto que Deus lhe entregara já vinha com um sorriso embutido, daquele tipo que é capaz de te cumprimentar todas as vezes que se passa na calçada dela. Todo sagrado dia em que eu saia a passos rápidos de casa para o serviço ela estava lá, pronta a me dar um “bom dia”, segurando uma vassoura na mão varrendo as poucas folhas que se juntaram sob sua calçada durante a madrugada. E seu esposo, um senhor sisudo, discreto, sempre bem alinhado usando calça social clara sempre em algum tom que ou era bege ou cinza, camisa de manga curta com listras discretas entre azul e branco, óculos redondos e um chapéu de palha. Ele sempre fingia que não nos via, ao contrário de sua senhora, contudo, insistentemente o cumprimentávamos até que ele cedia e respondia com algum grunhido. É uma figura curiosa.


Todas as sagradas manhãs, perto da ponte, durante o movimento matinal de mães levando suas crianças para a escola e eu, indo trabalhar como muitos que por ali transitavam sem reparar na beleza do rio que corria ali debaixo, lá estava ele. Passeando sem pressa com as mãos nas costas, vez em vez parando, olhando para algum movimento curioso, olhando um grupo de meninos e meninas falando alto, ele observava os pássaros, olhando da ponte a pescaria dos que estavam ali desde a madrugada e, por uma vez o vi chutando com aquela simplicidade matuta uma garrafa plástica que estava no meio da praça, parecia dizer: “Isto não faz parte da natureza”.


Ao lado da casa deste casal singular estava a fruta onde heróica ladrava no quintal, e, adiante, uma casa que mais vivia fechada do que aberta e que de vez em quando aparecia um imponente geep azul estacionado a frente. Encerrando esta descrição da rua, na esquina estava a Câmara, de onde para a alegria dos vizinhos (ou não) de lá se podia ouvir o som que vinha lá de casa, vindo do aparelho de som que rompeu a monotonia e, diga-se de passagem, a tranqüilidade da casa (do quarteirão) quando compramos e trouxemos no braço aquele aparelho pesado: eu, Minínu, Sdrúxulo e Fanalha. Tudo para inaugurar tocando Mortification.


- Hoje eu vou dormir cedo...


- (risos)...Melhor seria se você não tivesse dito nada!!!


E era dito e feito! Esta frase dita por qualquer um dos que estivesse debaixo do teto daquela casa significava que três da manhã era o horário mínimo em que se ia dormir.


Às vezes dormíamos de madrugada, às vezes não dormíamos... fazendo o que? Bem, jogando bolas de tênis na parede, fazendo rinhas de formigas versus cupins no jardim da Igreja Matriz, jogando conversa fora, roubando placas, jogando videogame que, vivia conectado ao aparelho de som e cantávamos de cor todas as músicas que o game possuía, andando de skate ou ainda juntando dinheiro para comprar alguns biscoitos, algum suco, ou cozinhando na nossa culinária alternativa.


Até que o gás acabou e ninguém tinha sequer um tostão furado. Problema? Não! Não pra quem queria comer comida no fogão à lenha.



- Vamo na pizzaria?


- Vamo, mas vamo esdrúxulo!


E isso resultou em um indo a uma refinada pizzaria de cueca samba-canção, tênis amarelo, camisa azul e chapéu preto. Outro indo de coturno, bermuda de tactel e camisa regata, e o outro... bem... o outro era o Sdrúxulo mesmo.


Hagar, Alpiste, "Axé, Gordo!", alvo de chiclete, perrengues, caxaba, fanalhisses, sal e açúcar sem medidas, macarrão com canela, catupiri, pimenta, farinha, o Xan-Gô de Tianastácia, trielo, falta de crédito e mãos atadas ao que acontece longe - eles nos ensinaram que a distância mostra que você não tem o controle de tudo como pensava, que as melhores fases da vida passam rápido, e os melhores amigos (e primos) fazem parte desta fase. "Meu Maracatu pesa uma tonelada", mas não pesa mais que a bagagem que a terra das Araras grandes nos deu.


(Alex Sandro B. de Lima)



Urutau



“Versos tristes são aqueles quando tento escrever


sobre tentar escrever vesos.”


(Alex Sandro Bambil de Lima)





Urutau no canto torto,

Canhestro alado no canto desafinado;

Inerte, sombrio, absorto,

Amuado sob o tronco lascado.



Larga vez em vez esta voz...

Você não tem asas,

Expulsa esta lira atroz



Que cora a tez com rimas rasas.

Admiração e espanto solfejam seu canto noturno

É um pranto quando vê a estrela brilhar,



No trovão que esconde seu canto taciturno

Na chuva se lança no fel da lembrança de quem não está.



Canta assim para si mesmo,

Mesmo que seja a esmo,

Um verso tosco numa nota menor qualquer,

Na tempestade se desfazia sua epifania de mulher.



(Alex Sandro B. de Lima)






segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Um ícone, um mito, uma lenda viva!

Foto: Alex S. Bambil
(Gustavo Aurélio - parceiro de grandes escritos, lucubrações e macarrão com canela!)

Difaculdade

Ainda há esperança! Era pra ser apenas mais uma noite normal, apenas mais uma aula normal, porém, passei a assistir a aula com a mesma atenuada atenção que extraio um tatu das narinas.
Um ruído irrompe na mórbida aula (...) nem o pobre celular resistiu à dificuldade de faculdade de analisar a vida de poeta. Enquanto isso olho para o quadro verde que a escola me ensinou que é negro e, olhando para a luz falsa das lâmpadas procuro a esperança nos rostos acanêmicos; um andrógeno de beiça gigante, uma gigante, uma com uma guavira na testa, uma esquizofrênica, um duende ninfomaníaco, Abile de Bob e um abominável violonista da escuridão, enquanto meu vizinho se desespera com a tinta de caneta azul que o acompanhou durante boa parte de sua vida de estudante pintando o surrealismo dos sons e das vozes que não estão interessadas em aula alguma.
Numa cadeira, uma gota de tinta azul aguardando zoar alguém... eu matei uma esperança; mas lá fora, ao redor das luzes falsas da praça ainda há esperança, muito além de essa ser apenas mais uma aula comum.
Se não, pelo menos vamos ficar na esperança de uma outra e verdinha esperança entrar voando pelo quadro verde furado na parede, preenchendo a monotonia de mais uma noite perdida, em uma sala acanêmica e caipira.

(Gustavo Aurélio e Alex Sandro Bambil)

Difaculdade II


Minha janela da faculdade dá para a rua, minha dificuldade na faculdade é sair da lua. Mas como? Se a rua tanto mais me atrai? Mais que o interior emparedado branco enquadro negro, o que me puxa é o interior colorido pantaneiro cheio de vida.
Lá fora vejo a tia que mora no interior, a amável tia que nem imagina que está neste texto; texto este que é uma manifestação minha, assim como a água que ferve no interior do milho fazendo-o virar pipoca, a pipoca da tia que me alimenta mais que o corpo, também o espírito quando suas doces palavras, mais que suas pipocas vem nos confortar e fazer-nos refletir que existe muito além desta panela de gente empipocada, nos caminhos de paralelepípedos, que consiste em ser o resumo momentâneo da vida aquidauanense, onde muitos motoristas de tinta estão estacionados. Mas não mais do que quinze minutos para não levar multa, seguindo em frente e levando de carona este momento consagrado para a eternidade em nossa bagagem.

(Gustavo Aurélio e Alex Sandro Bambil)

Fora do ar




Porque eu sou tão desligado as pessoas se irritam.
Eu ando devagar para provocar a chuva a me alcançar
E provoco os céticos exprimidos sob os toldos que têm medo de se molhar.
E dormir é me anular, é fugir, é esquecer, e eu sempre me esqueço,
porque sou desligado demais.
Poetizar e musicar é bálsamo para o cerne da alma;
Eu tento lembrar de não esquecer as chaves, as roupas pela casa,
as meias sem pares, as meias palavras, a alma na sala e o vilão no sofá,
mas eu sou desligado demais.
Eu ando na tempestade sem medo da chuva, mas esbarro no medo dos raios,
porque sou desligado demais.
Prometo quebrar, revolucionar, mas abandono a alma nas canções,
durmo nos acordes,
acordo no silêncio,
foco violões, toco nas neblinas das manhãs, aumento o volume,
ligo o chuveiro, porque sou desligado demais.
às vezes não ligo, só ascendo.
Não que eu não ligue, apenas quero esquecer,
e eu sempre me esqueço,
porque sou desligado demais.


(Alex Sandro Bambil de Lima)

O Poeta e a Lixeira




E é toda vez assim quando eu colho o acúmulo das mágoas,
Da ira, do erro tolo, da lágrima por mim mesmo reprimida com autoritarismo.
Vejo-me quebrando, mas não rompendo este mal...
Trêmulo, choroso, covarde e inconseqüente.
Escurece e meu grito se mistura a esta escuridão.
Minhas mãos frias, machucadas e manchadas com sentimentos dormentes meus.
É sempre assim, preciso ver-me estilhaçando madeira contra árvore
De qualquer maneira e sentir dilacerando esta lágrima gelada
percorrendo o tortuoso caminho do íntimo do coração

até meus olhos parados.
Rasguei a máscara sem pudor como uma frase ébria de blues
no fim de um dia de cão.

Palhaço poeta estúpido.
Coração, oração e implosão!
É sempre assim, eu sei...
É quase inútil acorrentar o heteronômio no calabouço,

deixar versos amassando no bolso; me deixar sentado na beira da estrada,

fugir como bicho e jogar sem compaixão os versos no lixo.


(Alex Sandro Bambil de Lima )